Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

O agronegócio é o seguinte

Economia em trajetória de recuperação

Janeiro de 2018

O ANO de 2017 ficará marcado pelo fim da mais longa e profunda recessão brasileira desde a Segunda Guerra Mundial. O maior problema reside, atualmente, no déficit do sistema previdenciário, que, além de elevado, é crescente no tempo. Com as denúncias envolvendo o presidente da República, o governo perdeu força junto ao Congresso Nacional para promover a reforma no âmbito necessário para o País. A votação de uma versão mais branda da reforma foi deixada para fevereiro próximo. Vamos esperar que a economia brasileira siga na trajetória de recuperação e ajuste neste ano de 2018.

Embora os temas domésticos demandem grande atenção, não podemos esquecer que há importantes dilemas se desenrolando no ambiente externo. Um deles é o excesso de endividamento na economia chinesa, de 269% do seu Produto Interno Bruto (PIB) segundo o seu Banco Central. Os mercados enxergam o Brasil e, principalmente, o nosso agronegócio fortemente ligados à economia chinesa. Um problema lá, certamente, pode ter fortes impactos aqui.

A falta de resultados concretos nas negociações e o adiamento do acordo entre o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) e a União Europeia (UE) frustraram as expectativas sobre a 11a Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC). Do ponto de vista comercial, um acordo entre o MERCOSUL e a UE seria interessante para o agronegócio brasileiro. Haveria abertura para novos mercados nos 28 países da UE, com 500 milhões de consumidores. As exportações agrícolas seriam facilitadas com tarifas eliminadas e reduzidas e barreiras técnicas reformadas.

Um fato cada vez mais presente nas avaliações de fluxos de comércio é que, por trás de cada tonelada transacionada, está embutido um determinado conteúdo de recursos naturais do país produtor. No caso das commodities agrícolas, há um elevado conteúdo de água e de emissões de gases do efeito estufa por trás de cada tonelada exportada. A produção de 1 tonelada de soja, por exemplo, requer aproximadamente 2.200 metros cúbicos de água. A soja importada pela China em 2017 equivale a 2,55 vezes a vazão do rio Amarelo, o segundo mais extenso do país.

Na agenda de eventos, estamos a quase um ano da realização da ANUFOOFD Brazil. Os preparativos seguem de maneira intensa, com a combinação do know-how alemão e da criatividade brasileira. Trata-se de um enorme esforço para oferecer uma feira de negócios que possa conectar da forma mais abrangente possível demanda e oferta para o mercado nacional e o MERCOSUL. Será uma oportunidade única para promover os produtos brasileiros ao mundo.

Chama a atenção o trabalho para reformulação do Conselho dos Produtores de Cana-de-Açúcar, Açúcar e Etanol do Estado de São Paulo (Consecana-SP). Neste momento, a discussão está centrada na metodologia de cálculo da remuneração da matéria-prima. A cada cinco anos, esse embate vem normalmente à tona. Nas duas pontas extremas, estão a Organização de Plantadores de Cana da Região Centro-Sul do Brasil (ORPLANA), representante dos produtores da matéria-prima, e a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA), na defesa dos direitos da indústria.

Nos negócios com boi gordo, o maior abate de animais na próxima safra deverá pressionar as cotações, principalmente entre abril e maio. Em um ano de incertezas como o de 2018, é fundamental buscar opções de venda ou ferramentas para a trava de preços da arroba.

Na soja, os inoculantes fixadores de nitrogênio garantem uma vantagem biológica à planta. Este fenômeno diminui de forma substancial o consumo de fertilizantes nitrogenados e viabiliza economicamente a cultura nos quatro cantos do País. No esforço para elaborar o seu planejamento estratégico, a Associação Nacional dos Produtores e Importadores de Inoculantes (ANPII) organiza-se para montar um banco de dados e de informações. Uma pesquisa de mercado aponta uma taxa nacional na adoção de nutrientes ao redor de 70%, mas a variação entre as diversas regiões do País é imensa. E esta constitui uma das distorções a serem corrigidas.

Na seção Abre Aspas, apresenta-se a entrevista com o empresário Mario Sergio Cutait, executivo experiente da empresa familiar MCassab e diretor do Departamento de Agronegócio (Deagro) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). A conversa tratou sobre o quadro de ansiedade na sociedade brasileira com a crise econômica. O ciclo de recuperação veio em 2017 e promete continuar em 2018. O ponto de incerteza está nas eleições presidenciais, de governadores e parlamentares na Câmara dos Deputados e no Senado. Este é o momento correto para o agronegócio cobrar dos candidatos um projeto competente de governo.

O Caderno Especial do mês apresenta o Desafio 2050, uma realização da Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Na agenda de trabalho, tem-se o desafio de aumentar a produção alimentar para atender o consumo de uma população crescente. A perspectiva é que o Brasil ocupe um espaço de liderança e protagonismo em escala mundial.