Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

O agronegócio é o seguinte

Contexto para o plano safra plurianual

Maio de 2018

A ECONOMIA brasileira tem navegado, ao longo dos últimos meses, em mares tranquilos. Os indicadores econômicos têm mostrado resultados positivos, ainda que não o suficiente para mudar significativamente a percepção de curto prazo em relação ao desemprego e à queda da renda verificada nos anos anteriores. A inflação surpreende de forma positiva, com destaque para a queda dos preços dos alimentos.

Já a atividade econômica dá sinais de que a retomada em 2018 será muito mais moderada em comparação à prevista inicialmente. O Banco Central (BACEN) mostra preocupação e abaixa a taxa referencial de juros. Na questão estrutural do desajuste das contas públicas, ainda permanece particularmente a questão previdenciária. O quadro econômico poderá sofrer mudança abrupta apenas a partir do segundo semestre, com o resultado das eleições de outubro.

A baixa inflação e a queda na taxa de juros colocam em xeque a política nacional do crédito rural, com maior competição das taxas de juros livres de mercado em comparação às controladas. Também ganham espaço, no aporte de recursos oriundos do mercado de capitais, as operações com os títulos do agronegócio. Às vésperas de ser anunciado, o Plano Safra 2018/2019 certamente trará novidades nessa área. Poderemos estar a caminho de um modelo plurianual, como a Farm Bill, nos Estados Unidos, e a Política Agrícola Comum (PAC), na União Europeia (UE).

Um estudo sobre o mercado de trabalho no agronegócio mostra uma queda na população ocupada de 2012 a 2017. A contração foi de 8,4% no período. Se, de um lado, a incorporação de tecnologias mais intensivas em capital e poupadoras de mão de obra explica a redução; de outro, trouxe para o setor aumentos expressivos na produtividade e na renda. Nas localidades onde o agronegócio é a atividade econômica principal, o setor de serviços expandiu e absorveu uma quantidade de mão de obra superior à liberada pelo agro.

As políticas públicas brasileiras, mesmo as mais relevantes, costumam não avaliar qual será o seu custo social. No final de 2017, o Instituto Escolhas lançou o estudo “Qual o impacto do desmatamento zero no Brasil?", que procurou mostrar o efeito do desmatamento zero sobre as parcelas economicamente vulneráveis das regiões que mais terão que contribuir para eliminar o desmatamento. Os resultados mostraram que haveria um impacto muito pequeno no Produto Interno Bruto (PIB) nacional (redução de apenas 0,62% no acumulado entre 2016 e 2030 se todo o desmatamento cessasse imediatamente). No entanto, o impacto não é uniforme nem regionalmente nem entre as classes sociais, recaindo mais sobre as famílias de baixa renda. Ao ser constatado algum tipo de prejuízo, alguma medida compensatória deve ser considerada.

Na conjuntura de mercado das commodities agrícolas, desperta atenção a reversão ocorrida com a soja em grão. As projeções eram temerosas com relação à temporada 2017/18, com especulações na direção de dificuldades para os produtores fecharem as suas contas. Os Estados Unidos derramaram no comércio internacional uma produção recorde, mas a forte seca que afligiu as principais regiões produtoras da Argentina provocou uma mudança de cenário. Ao mesmo tempo, a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China é favorável ao Brasil, do ponto de vista comercial.

No mercado de milho, a elevação dos preços surpreendeu no primeiro quadrimestre deste ano. Nem mesmo os estoques recorde de passagem do cereal foram suficientes para impedir a alta de preços dele. Este movimento era até previsto, mas não na intensidade verificada. Para o pecuarista que precisará de milho para o confinamento no segundo semestre, a recomendação é aguardar o início da colheita e a pressão de baixa em função da maior oferta.

O consumo de biodiesel em 2018 deve ser de aproximadamente 5,3 bilhões de litros. As matérias-primas mais utilizadas para a sua produção são a soja e o sebo bovino, representando em torno de 70% e 14% respectivamente. O Brasil possui o segundo maior rebanho bovino do mundo, sendo o maior exportador de carne bovina, com estimativa de crescimento de 2,15% ao ano, até 2020, nas vendas externas. Essa situação desperta o interesse do pecuarista, do frigorífico e da indústria de biodiesel, pela possibilidade de aproveitamento de um subproduto que, até pouco tempo atrás, era pouco utilizado, quando não descartado.

Na seção Abre Aspas, a participação de Fábio de Salles Meirelles Filho, presidente do Instituto Pensar Agropecuária (IPA), braço de cooperação técnica da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). Para o entrevistado, o impacto da reforma trabalhista trouxe mudanças positivas para modernizar a relação entre proprietários rurais e trabalhadores. Também positiva, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de ratificar a constitucionalidade do Código Florestal, segundo Meirelles Filho, defendeu o patrimônio ambiental brasileiro e contribuiu para a sustentabilidade dos 4 milhões de pequenos agricultores. Os temas que continuam em aberto são: a demarcação de terras indígenas e a aquisição de terras por estrangeiros.

O Caderno Especial deste mês traz material da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA). Dentre os assuntos tratados, o destaque fica com a Política Nacional de Biocombustíveis, denominada RenovaBio, aprovada ao final de 2017, depois de um ano de discussões entre o Governo e os agentes da cadeia de combustíveis.