Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

O agronegócio é o seguinte

Inovação e tecnologia no agro

Julho de 2018

A GREVE dos caminhoneiros mostrou claramente a falta de pulso do governo atual. Mostrou-se um verdadeiro absurdo a forma como todo o processo foi conduzido. A Agroanalysis irá acompanhar cuidadosamente todos os desdobramentos do aumento do frete. O problema ainda está muito longe de uma solução.

O artigo “Um tributo regulador para o mercado" (página 19) deixa claro que, se a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (CIDE) fosse utilizada com a finalidade para a qual foi criada, a crise poderia ser evitada. Se, por um lado, o caminhoneiro tem que poder calcular exatamente o custo do seu frete; por outro lado, a Petrobras tem compromisso com os seus acionistas e não pode ser utilizada para fazer política pública mantendo artificialmente baixos os preços dos combustíveis. Para isso, a CIDE deveria funcionar absorvendo choques em momentos negativos e criando liquidez em tempos melhores. Esta é a solução para o problema: deixar a CIDE cumprir o seu papel, tornando os preços dos combustíveis menos voláteis sem prejudicar o caixa da Petrobras. Mais um ponto importante seria montar leilões eficazes dos contratos públicos, em vez de tabelar fretes.

Para apimentar ainda mais o cenário, a política do Federal Reserve (Fed) – banco central dos Estados Unidos – e a expectativa das eleições por aqui contribuem para manter o cenário de volatilidade. Nessa hora, passarinho que muda de galho e macaco que pula muito levam chumbo. O produtor rural deve ficar atento ao movimento do dólar, que vai flutuar até o quadro eleitoral se definir. Para não errar, a solução salomônica é sempre bem-vinda: comprar e/ou vender aos poucos para garantir um bom custo/preço médio. Mas, no quadro geral, o setor agropecuário é o que menos sofre com a crise.

O Plano Agrícola e Pecuário (PAP) para a safra 2018/19, de julho deste ano a junho de 2019, foi o segundo depois da aprovação da Proposta de Emenda Constitucional nº 95/16, a PEC do Teto dos Gastos. Os recursos para o crédito rural foram praticamente mantidos nos mesmos níveis da temporada anterior. As taxas de juros foram reduzidas, na esteira da queda ocorrida nos últimos meses na taxa de referência da economia, a Selic. No entanto, temos ressaltado, nas últimas edições, a importância de se ficar atento aos juros. Com a queda da Selic, e da inflação, os juros, que antes eram apetitosos ao produtor, podem ser mau negócio agora. Por exemplo, se a inflação for 4%, uma taxa nominal de 8% anunciada pelo Governo representa uma taxa real de 4%, o que é muito alto. Toda atenção e contas bem-feitas são fundamentais.

Outro assunto em evidência no País é a mudança na lei dos defensivos agrícolas. As opiniões são divergentes, contudo importantes formadores de opinião do agronegócio brasileiro são favoráveis à mudança. Fontes internacionais de informação apontam para o papel crescente da produção agropecuária na segurança alimentar do mundo e no uso de combustíveis limpos e renováveis. A inovação, a sustentabilidade e a qualidade passam a ser traçadas como sinônimos na aplicação das tecnologias. Não pode haver déficit entre a convergência científica e a regulatória. O País colhe safras cheias, beneficiadas, por exemplo, pelo uso de sementes com Organismos Geneticamente Modificados (OGMs). Deve seguir nessa mesma linha a legislação de defensivos agrícolas quanto ao uso de moléculas modernas com maior produtividade para as lavouras e menor impacto ambiental. O 2º Fórum Inovação, promovido pela Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), discutiu esse tema do ponto de vista da Ciência e da Pesquisa. A Agroanalysis continua aberta ao debate.

O Brasil é o quarto maior consumidor de fertilizantes do mundo, atrás apenas da China, da Índia e dos EUA, com um consumo da ordem de 34 milhões de toneladas em 2016. Com alta dependência internacional, cerca de 72% do consumo doméstico são de produtos importados. Esse retrato enfatiza a importância da gestão logística para abastecer de fertilizantes as misturadoras e as indústrias no interior do País. Um bom planejamento da logística de fertilizantes envolve reduzir custos para entregar um produto mais competitivo ao agricultor.

Na entrevista do mês, há a participação de João Martins da Silva Junior, presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Pontos importantes foram tratados pela instituição, como a organização e a imagem de uma atividade tão abrangente e heterogênea como a agropecuária. A CNA criou o Conselho do Agro, com a participação de importantes entidades ligadas às suas cadeias produtivas. A programação de reuniões mensais força o entrosamento e uma visão mais consensual dos problemas enfrentados por elas no cotidiano. Isso contribui para pressionar a continuidade das reformas para melhorar o funcionamento do Estado brasileiro.

Pelo nono ano consecutivo, a Agroanalysis apresenta o Caderno Especial da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja). Algumas das suas iniciativas merecem destaque. A entidade acaba de lançar, oficialmente, o projeto Guardião das Águas, com o objetivo de identificar as nascentes dentro das propriedades rurais e classificá-las conforme seu grau de conservação. No programa Soja Plus, criado em 2011, estão inseridas 1.033 propriedades, com 1,7 milhão de hectares cultivados de soja. A meta é dobrar o número de propriedades até 2020. Outro esforço é o programa Armazena MT, para o agricultor comercializar a safra com mais poder de barganha. Já o Movimento Pró-Logística (MPL) promove o apoio para finalizar a pavimentação da BR-163 no trecho entre Sinop (MT) e Miritituba (PA) em 2019.