Agroanalysis - A Revista de Agronegócio da FGV

Macroeconomia

Foco da política monetária

Julho de 2018

O AMBIENTE macroeconômico brasileiro registrou considerável deterioração ao longo das últimas semanas. As perspectivas relativas ao crescimento econômico pioraram significativamente, sendo que as projeções de mercado para 2018 caíram de cerca de 3,0%, no começo do ano, para pouco mais de 1,5%. A recente greve dos caminhoneiros apenas piorou o quadro da atividade econômica brasileira, e os seus efeitos concretos sobre o crescimento do ano ainda não são plenamente conhecidos.

Esse quadro apenas amplifica a onda de pessimismo que atualmente atravessa a economia brasileira. Desta forma, a esperada reação do consumo das famílias para este ano não veio da forma esperada, condicionando um comportamento da demanda agregada bem menos expansionista do que o projetado no começo do ano. O mesmo vale para os investimentos produtivos: a perspectiva de baixo crescimento e as incertezas quanto aos ambientes político e econômico levam a um quadro de desânimo de boa parte do empresariado brasileiro. Com isso, os investimentos seguem relativamente contidos neste ano.

A somatória desse quadro de baixo crescimento reflete-se sobre o comportamento da inflação brasileira. Nos primeiros meses do ano, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou variações abaixo do esperado recorrentemente, levando o Banco Central (BACEN) a manter a flexibilização da política monetária. Com isso, a taxa básica de juros – Selic – tem se situado no mais baixo patamar ao longo dos últimos meses desde a implementação do Plano Real, em 1994.

Em uma decisão que surpreendeu o mercado, o BACEN optou pela manutenção da meta da taxa Selic em 6,50%. Isso decorreu de uma perspectiva de piora do cenário internacional, particularmente em relação ao cenário para a taxa de juros norte-americana e o preço do petróleo. Sob essa perspectiva, o aquecimento da economia dos EUA e o baixo desemprego têm condicionado um quadro de aumento dos juros pelo Fed (banco central dos EUA). Nas últimas semanas, ficou claro que o aperto a ser promovido pelo Fed será relativamente mais intenso do que o projetado há alguns meses. O efeito disso foi um claro reposicionamento dos capitais em escala global, atingindo mais duramente as economias emergentes. Não sem razão, as moedas dos países emergentes perderam valor frente ao dólar norte-americano ao longo das últimas semanas.

A moeda brasileira não ficou imune a esses eventos. De fato, o real registrou forte depreciação frente ao dólar, atingindo um patamar superior a R$ 3,80 em alguns momentos. O comportamento da moeda brasileira levou o BACEN a atuar no mercado futuro, vendendo swaps cambiais para acalmar o mercado. Mesmo com as atuações do BACEN, a cotação do dólar ainda permaneceu relativamente elevada quando comparada à de meses anteriores.

O stress verificado no mercado cambial levou o mercado a especular se o BACEN deveria inverter o sentido da política monetária e apertar os juros, como uma forma de conter a alta do dólar. No entanto, esse tipo de ação não faz o menor sentido no contexto do regime de metas para inflação em um cenário de atividade econômica lenta e inflação em baixa. Registre-se, ainda, que o Brasil possui um volume expressivo de reservas internacionais e que as contas externas não representam uma preocupação neste momento. Nesse sentido, uma eventual elevação da taxa Selic só faria sentido em um contexto de elevação da inflação que sinalizasse para uma trajetória de desvio em relação à meta estabelecida.

De qualquer forma, o comportamento recente do mercado financeiro serve como um alerta para questões mais complexas da economia brasileira. Em particular, o quadro fiscal mostra-se extremamente deteriorado e o déficit do INSS representa o maior desafio imediato em termos de ajuste das contas públicas brasileiras. Nesse sentido, mostra-se extremamente relevante a discussão de uma reforma da previdência já no início de 2019.

No entanto, o debate político entre os candidatos mais viáveis mostra-se pouco auspicioso, até o momento, quanto a levar adiante uma reforma da previdência já no ano que vem. Desta forma, o stress recente do mercado financeiro serve como um alerta desse desafio e dos riscos que a economia brasileira enfrentará mais adiante.