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Tecnologia significa produtividade

Celso Casale

Celso Casale

Engenheiro mecânico, graduado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com pós-graduação em Marketing pela FGV. É diretor-presidente da Casale Equipamentos Ltda. e da Jemac Industrial e Comercial Ltda. Atua também como diretor da Trademaq/Abimaq, é conselheiro do Senai e do Sesi de São Carlos-SP e agropecuarista. Presidente da CSMIA, é integrante do Conselho Superior do Agronegócio (Cosag) da Fiesp. Foi eleito Industrial do Ano de São Carlos em 2010.

AGROANALYSIS Qual é a importância e a função da CSMIA da Abimaq?

CELSO CASALE A Câmara reúne 190 fabricantes de máquinas e implementos destinados à produção agropecuária, desde equipamentos para o preparo de solo, plantio, pulverização, colheita, criação de animais, até armazenagem e transporte de produtos agrícolas para as indústrias alimentícias, ou diretamente para a mesa dos brasileiros. Criada em 1965, ela acompanhou toda a evolução do setor. Hoje, na condição de referência mundial na produção de tecnologia, o País é um dos maiores produtores de máquinas e implementos agrícolas no mundo. Todo o trabalho é voltado para estimular uma agricultura autossustentável. Como isso possibilitou o desenvolvimento de pequenos a grandes produtores, o fortalecimento do setor saiu impulsionado.

AGROANALYSIS Como está o programa de trabalho desenvolvido na CSMIA?

Casale Estivemos em duas missões comerciais, organizadas pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC): para a África

Subsaariana, e Panamá, Venezuela e Peru, em 2009. Participamos também do Fórum Agrievolution para discutir as ações da indústria de máquinas e implementos agrícolas pelo mundo e as tendências econômicas e de mercado, com reuniões, durante 2010, em Orlando (Estados Unidos), e Bolonha (Itália), e neste ano em Paris (França).

Iniciamos a campanha Vale a Pena com o mote Vale a Pena ser um associado da Abimaq-CSMIA, custeada pela CSMIA e com o apoio do Departamento de Expansão Associativa da Abimaq. Lançada na Agrishow 2010, a campanha obteve excelentes resultados: conseguimos 32 novas associações. A mensagem, em linguagem simples, mostra as principais vantagens de ser um filiado.

Aproximamo-nos também do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) para ampliação e fortalecimento do programa Mais Alimentos, voltado para a agricultura familiar. Organizamos caravanas pelo Nordeste e promovemos reuniões com a coordenação do programa, chamada de Clínicas Mais Alimentos, para facilitar o cadastramento de produtos e o acesso às informações.

Pretendemos atender à antiga reivindicação dos associados, na criação de um levantamento estatístico especialmente para atender às necessidades do setor, com projeto concebido em um workshop com associados de diversos segmentos da indústria. O objetivo é estabelecer, junto com o Departamento de Economia e Estatística da Abimaq, uma radiografia periódica e confiável para coordenar ações, projetos e pleitos.

Temos ainda o Pró-Implemento, que faz parte do convênio assinado com as Secretarias de Agricultura e da Fazenda do Estado de São Paulo para ampliar as oportunidades de financiamentos de implementos agrícolas para os pequenos produtores. A linha de crédito foi lançada na Agrishow 2010, oferecendo juro zero para pequenos produtores. Para a primeira fase do programa, foram alocados mais de R$ 35 milhões.

Estamos em fase de criação do programa de TV da CSMIA-Abimaq, que irá tratar especificamente do segmento de máquinas e implementos agrícolas, para ser veiculado semanalmente numa das emissoras voltadas para o agronegócio.

AGROANALYSIS A crise financeira mundial de 2008 chegou a abalar o negócio de máquinas agrícolas?

Casale Sim, tivemos um reflexo da crise, principalmente durante o ano de 2009, traduzido em queda de vendas de aproximadamente 30% em relação ao ano de 2008. Foi, na verdade, um ano difícil para a economia brasileira, em particular para os fabricantes de máquinas e equipamentos. O importante, porém, é que conseguimos uma forte recuperação, impulsionada principalmente pela criação do Finame-PSI e do Programa Mais Alimentos voltado para a agricultura familiar. As boas safras colhidas no Brasil em 2008/09 e 2009/10 também ajudaram.

AGROANALYSIS Como foi o desempenho em 2010 e quais as expectativas para 2011?

Casale Felizmente, o setor se recuperou consideravelmente. Faltou pouco para atingir o nível de vendas de 2008. Fechamos 2010 com alta de 24,9% em relação a 2009. A meta para 2011 é crescer em torno de 15% e até superar as vendas de 2008. Tudo indica que vamos ter outra boa produção de grãos em 2010/11, e os preços de commodities agrícolas deverão manter-se altos nos próximos anos, e, desde que não falte crédito para o produtor investir, teremos bons anos pela frente.

É importante dizer que em 2010, além de subir o faturamento das empresas, o setor apresentou uma alta de 13,3% no número de empregados. Em dezembro, a indústria contava com 47,6 mil postos de emprego, contra pouco mais de 42 mil no mesmo mês de 2009.

AGROANALYSIS Qual o impacto da prorrogação do Programa de Sustentação do Investimento (PSI) no desempenho do setor até o fim do ano?

Casale O Finame-PSI está sendo fundamental na recuperação do setor, pois a agricultura só pode investir com financiamento a juros subsidiados, e com longo prazo para pagar. Graças ao trabalho das câmaras setoriais, inclusive a CSMIA, em sintonia com a diretoria da Abimaq, junto ao BNDES e ao governo federal, temos conseguido sucessivas prorrogações do Programa de Sustentação do Investimento (PSI).

A meta da CSMIA em relação a crédito para compra de máquinas e implementos agrícolas é conseguir que o BNDES melhore as condições do Moderfrota, tornando-o ainda mais atrativo que o atual Finame-PSI, que atende a todo tipo de máquinas e equipamentos.

AGROANALYSIS Fala-se muito em desindustrialização no Brasil, por causa da valorização do câmbio. Como isso tem afetado as vendas internas e externas de máquinas agrícolas?

Casale O problema não é somente o câmbio, este é apenas um agravante. A questão maior está em relação à falta de competitividade das máquinas brasileiras. Sofremos com o excesso de carga tributária e os juros altos. É o chamado Custo Brasil, que nos impõe um custo adicional de aproximadamente 43% em relação ao concorrente americano ou alemão.

Não tenha dúvida de que as importações de máquinas de todo tipo aumentam substancialmente no País. Mas, ao mesmo tempo, o País tem exportado cada vez menos. A prioridade é a exportação das commodities agrícolas e minerais. No longo prazo, isso é muito danoso para o País. O próprio Custo Brasil afeta também a agricultura. Poderíamos, por exemplo, exportar o óleo vegetal ao invés de exportar soja, ou exportar o algodão industrializado. Isso não é possível, porque os custos internos não permitem, e o sistema tributário não incentiva.

AGROANALYSIS Como ficaram as negociações dos fabricantes brasileiros de máquinas agrícolas que tiveram as exportações de seus produtos suspensas pela Venezuela, um dos principais compradores de implementos agrícolas entre os países da latino-americanos?

Casale Na verdade, não ocorreu a suspensão de exportação para a Venezuela, e, sim, ocorreu a nacionalização da principal empresa importadora de máquinas e implementos agrícolas brasileiros, a Agrisleña, o que ocasionou a interrupção de negócios com aquela empresa, mas, pouco a pouco, outras empresas estão assumindo seu lugar, e as coisas estão se normalizando.

AGROANALYSIS A CSMIA e a Embrapa firmaram acordo de cooperação para o desenvolvimento do portal Agrishow – Pró-África.

Casale O portal tem como objetivo estabelecer contato e estreitar relações com o continente africano que tem características agropecuárias muito semelhantes às brasileiras. No site, estarão disponíveis informações sobre tecnologia e culturas agrícolas, máquinas e implementos necessários para o cultivo, e o contato dos fabricantes nacionais de máquinas e implementos agrícolas associados à Câmara. O objetivo é a aproximação para, aos poucos, entrarmos no mercado africano. É um trabalho complexo, ainda em fase inicial.

É, sem dúvida, uma forma eletrônica de diálogo permanente com o mercado africano, mostrando as tecnologias agropecuárias brasileiras e um portfólio de máquinas, implementos e equipamentos que atendam às demandas do setor agropecuário africano. O portal será uma ponta de lança para que no futuro tenhamos uma feira Agrishow África para promover fisicamente nossos produtos naquele continente.

AGROANALYSIS Como são os laços históricos entre a CSMIA e a Agrishow?

Casale No começo dos anos noventa, os associados da CSMIA-Abimaq começaram a discutir em reuniões plenárias a criação de uma grande feira de negócios e tecnologia agrícola. Ao mesmo tempo, ficamos sabendo que outros grupos também tinham a ideia de montar uma feira. Tudo culminou com a parceria entre a Abimaq, a Abag, a Sociedade Rural Brasileira e outras associações.

Em uma das reuniões na Abimaq para tratar da feira, já com a presença de representantes das outras entidades, com a participação de Ivan Puppo Lauandos, então presidente da CSMIA, Francisco Matturro, Walter Baldan, Fabrício Moraes, Shiro Nishimura, Jak Torreta, David Kruks, Cristiano Valter Simon e o saudoso Ney Bittencourt, dentre outros presentes, quando discutíamos um possível nome para a feira, tive a felicidade de sugerir Agrishow. Isto, inclusive, está registrado em ata.

Hoje, a Agrishow é um grande sucesso e considerada a segunda maior feira do gênero no mundo, condizente com o porte do País como produtor de alimentos e biocombustíveis.

Celso Casale, Presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas (CSMIA) da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq)