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Segurança alimentar

Como atender à demanda mundial

A crise econômica mundial de 2008, que começou com o aquecimento de preços no setor imobiliário nos Estados Unidos, provocou expressiva queda na cotação das commodities agrícolas em 2009. Influenciadas pela redução das taxas de juros do banco central americano (FED), as empresas imobiliárias e as financiadoras especializadas passaram a atender clientes do chamado sub prime, sem fontes de renda confiáveis. Isso gerou uma cadeia desenfreada de compra e venda de títulos imobiliários. A bolha estourou quando os preços dos imóveis caíram, e as pessoas ficaram sem credito para pagar as suas dívidas. Muitos investidores optaram por aplicações menos rentáveis, e o mercado teve forte queda de liquidez.

No entanto, desde meados do ano passado, houve uma reversão abrupta nessa tendência de baixa, principalmente a partir da seca registrada nos campos de produção do Leste Europeu, com forte quebra na colheita. Também ajudaram nesse processo as adversidades climáticas no Canadá, Paquistão e em alguns países do leste asiático. Na verdade, ficam cada vez mais sedimentados os efeitos das mudanças climáticas e a ocorrência de eventos extremos diante do aquecimento provocado pela emissão de Gases de Efeito Estufa. Tudo isso traz especulação e cria mais volatilidade no funcionamento das bolsas.

O Fórum Outllook deste ano, realizado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda), deixou uma mensagem inédita: o crescimento do consumo em países emergentes não poderá ser atendido somente pela oferta da agricultura norte-americana. Outros países, como o Brasil, terão de se integrar com mais intensidade nessa empreita.

Novas fontes de suprimento

Não há como negar o aquecimento nos preços dos alimentos, enquanto rareiam as fontes de fornecimento e se assistem a revoltas populares, em particular nos países mais pobres. Por sua vez, para os próximos anos, nada indica arrefecimento da carestia, frente o explosivo aumento populacional e os desajustes nos padrões climáticos globais.

A relação mundial entre as reservas e a demanda por cereais está menor que há dez anos, mas até que em percentuais históricos razoáveis. Em relação aos anos noventa, o quadro está relativamente melhor, mas bem longe da saudável situação da virada do século passado para o presente. Na última década, houve anos em que a produção não acompanhou o ritmo de crescimento do consumo.

O problema pontual consiste mesmo na velocidade do esgotamento das áreas disponíveis em regiões tradicionais para a produção de alimentos. O caso mais emblemático é justamente o dos Estados Unidos, onde está a maior agricultura do planeta, porém, com estoques bem inferiores aos do mundo. As expectativas futuras estão depositadas em cima das tecnologias geradas pelas pesquisas, para as quais são carreados vultosos recursos. Novos processos terão de aparecer para a fabricação de biocombustíveis, em especial o etanol, e não ficar apenas à mercê de matérias-primas também usadas na alimentação, como o milho.

Então, o desafio consiste na abertura de novas fontes de suprimento alimentar. As quatro alternativas mais antigas fazem parte da zona temperada, como Estados Unidos, Europa, Austrália e Argentina, praticamente limitadas em termos de área. Na parte tropical, existe a opção mais recente, representada pelo Brasil, de maior potencial para crescimento da produção agropecuária no curto prazo, seja pela introdução de novas áreas na produção, ou com ganhos de produtividade.

Mas a questão não se limita tão somente a áreas disponíveis para a exploração agrícola. Existe a necessidade de se montar todo um leque de serviços de infraestrutura e logística para dar suporte a esse processo, como armazenagem, processamento, transporte, portos, dentre outros. Essa construção demanda projetos de maturação no médio e no longo prazo. A formação de cadeias produtivas constitui uma visão mais ampliada da agricultura propriamente dita, porque leva em conta a questão da segurança alimentar: de produzir e de abastecer.

Distante dos sistemas de plantation baseados na monocultura de exportação, com o emprego de latifúndios e mão de obra escrava, o agronegócio, hoje em dia, envolve operações tecnológicas complexas. Delas fazem parte, por exemplo, aplicações sofisticadas extraídas da biotecnologia, da tecnologia de informação e da logística. Acesso a crédito e uso de conhecimento são dois elementos indispensáveis na agricultura sustentável.

Insistentemente, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) alerta que o aumento nos preços globais de gêneros alimentícios básicos eleva o risco de crise alimentar. Para corroborar essa indagação, o organismo aponta para os níveis mais elevados alcançados, desde 1990, pelo índice de preços alimentares da ONU.

Alguns países no norte da África e no Oriente Médio fazem grandes compras de grãos para evitar conflitos como os que mudaram os governos da Tunísia e do Egito. A Coreia do Sul tenta aumentar as reservas de grãos, em estratégia próxima a de outros países asiáticos, sensíveis ao aumento das cotações dos alimentos e aos distúrbios sociais. O México adquiriu grandes volumes de milho no mercado futuro, como cobertura para altas nos preços de tortillas.

Regulamentar o mercado de commodities

No Fórum Econômico Mundial, realizado em janeiro último, em Davos, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, defendeu a regulação do mercado de commodities agrícolas e de petróleo pelo G-20, para evitar as grandes oscilações de preço e ameaçar a recuperação global.

O presidente também incluiu o petróleo entre as commodities que precisam de mais regulação, dizendo que não faz sentido nem o preço do barril a US$ 140 atingido em 2008 nem o mínimo de US$ 40 no pior momento da crise global.

Já Christine Lagarde, ministra da Economia da França, mudou a direção da conversa, para defender a regulação do mercado de derivativos de commodities como a forma de conter bolhas de preços de produtos agrícolas. Ela citou que “85% das posições de compra das matérias-primas agrícolas são feitos por investidores do mundo financeiro. Os produtores rurais ficam fora, e a financiarização do mercado de derivativos acentua a flutuação dos preços”.

O Brasil é a favor da proposta de regular a especulação e aumentar a transparência para o mercado futuro servir como orientador e redutor dos riscos de distorções. Sem encontrar resistência entre os países emergentes e desenvolvidos, a proposta possui boas probabilidades de evolução.

A posição brasileira é encontrar uma solução para evitar uma ação dominante dos especuladores no mercado. Isso não passa pela regulação do preço de commodities, mas, sim, pela redução do excesso de subsídios e intervenção governamental nos mercados agrícolas.

Para defender sua posição, o governo brasileiro cita duas razões muito simples. Quando as cotações estão baixas, a comunidade internacional não fala em medidas para sustentar os preços. Além disso, a volatilidade dos preços observada atualmente não é muito diferente da que foi vista nos últimos 50 anos.