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Agricultural Outlook Forum 2011

Visão brasileira

Preocupado com o aumento de preços no mercado internacional, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda), no Agricultural Outlook Forum 2011, em Arlington, no Estado da Virginia, realizado em fevereiro passado, apresentou estimativas recordes para a safra norte-americana 2011/12.

Para o economista do Usda, Joseph Glauber, mesmo com a projeção de uma oferta maior de grãos, os Estados Unidos continuarão com os estoques apertados e, ainda, levarão duas safras para tranquilizar o mercado.

As previsões do Usda são favoráveis para o milho e a soja produzidos no Brasil. Muito demandado, o milho possui ótima alternativa de comercialização no mercado internacional, como as vendas para a China, cujas compras aumentarão a partir de 2011. Por sua vez, a sua demanda segue firme internamente, com o consumo neste ano de 127 milhões de toneladas de milho para a fabricação de etanol.

Para o secretário da agricultura dos Estados Unidos, Tom Vilsack, o crescimento da população mundial e a ascensão e mudança dos hábitos alimentares da classe média em países com grandes populações, como a China e a Índia, mostram uma nova realidade. É um desafio que os agricultores norte-americanos não poderão enfrentar sozinhos, e precisarão da ajuda dos agricultores do resto do mundo na produção de alimentos para atender à população mundial crescente.

Iniciativa Nacional de Exportação

O Programa intitulado National Export Iniciative (NEI), criado pelo governo do Presidente Obama, em 2009, tem como meta dobrar as exportações americanas, com reflexos significativos na criação de novos empregos, no apoio ao rendimento agrícola e na revitalização das comunidades rurais.

Em 2010, as exportações agrícolas norte-americanas somaram US$ 115,8 bilhões, ou seja, um aumento de 18% em relação ao ano anterior. Os três principais países importadores foram: a China (US$ 17,5 bilhões), o Canadá (US$ 16,9 bilhões) e o México (US$ 14,6 bilhões).

Grande parte dos consumidores mundiais está fora dos Estados Unidos. Existem as economias emergentes em grande e rápido crescimento, com classe média crescente e significativas mudanças de dietas. Esta diversificação de clientes ajuda a gestão de riscos e a expansão econômica: cada US$ 1 bilhão de excedentes exportáveis gera oito mil postos de trabalho e adiciona US$ 1,4 bilhão em estímulos à atividade econômica.

Grãos e oleaginosas

As perspectivas para os principais grãos e oleaginosas na safra 2011/12 nos Estados Unidos refletem uma oferta global apertada, situação para o milho e soja no mercado interno, e uma forte demanda para os Estados Unidos em relação à moagem de trigo mundial.

Os preços elevados e os favoráveis retornos líquidos esperados para a safra 2011/12 resultarão na ampliação da área plantada. Os cultivos de milho e soja devem atingir um novo recorde. Houve uma elevação dramática de seus preços no segundo semestre de 2010, mas abaixo dos patamares registrados na safra 2007/08. O pico da precificação ocorreu no início de julho na soja, no fim de junho de 2010 no milho e, tardiamente, em fevereiro de 2011, no trigo.

É projetado menor volume em termos de oferta de trigo, assim como a produção e os estoques iniciais. Embora devam diminuir, as suas exportações continuarão fortes e contribuirão para níveis recordes projetados para os preços agrícolas.

De olho no mercado chinês, a projeção é de aumento no nível atual da produção por hectare, de 10 toneladas para 11,6 toneladas e 13,12 toneladas, respectivamente, em 2020 e 2030. No entanto, essa tendência pode aumentar para 14 toneladas em 2020. Isso poderá ocorrer se os novos eventos biotecnológicos em desenvolvimento proporcionarem avanços em eficiência para o frio e nitrogênio, resistência a pragas e doenças e tolerância à seca.

O etanol continuará a ser uma parte permanente da equação de demanda de milho dos Estados Unidos, mas existe grande comprometimento dos produtores com a qualidade, inovação tecnológica e melhoria na manutenção da infraestrutura para atender à demanda mundial.

O cultivo de milho expandirá em função da expectativa de preços elevados. Como o recorde da sua produção tem sido geralmente compensado por menores níveis de estoques iniciais, a oferta é proporcionalmente menos.

A área plantada de soja deverá aumentar ligeiramente na safra 2011/12 em relação à temporada anterior. A precificação média para o período, de US$ 28,7 a saca, garante níveis históricos elevados de retornos esperados.

Potencial do agronegócio brasileiro

Para o assessor especial do Usda, Michael Cordonnier, com avanços significativos, a produção agrícola brasileira galgou expressão no cenário mundial como primeiro produtor mundial de açúcar, suco de laranja e café e um dos maiores produtores de soja, milho, etanol, tabaco, carne bovina, suína, aves, frutas e produtos florestais.

O Estado do Mato Grosso é apontado com as maiores perspectivas de crescimento no cenário agrícola brasileiro, em especial na sojicultura. Os principais fatores limitantes para a produção é a infraestrutura inadequada pela falta de investimentos, a valorização da moeda brasileira e as regulamentações ambientais rígidas. O principal agente responsável pelo processo de devastação da floresta amazônica é a pecuária de corte, e não a soja.

Pontos positivos constituem os acréscimos na produção de milho da segunda safra, que já responde por aproximadamente 40% da produção nacional do produto. Isso viabiliza tecnicamente a rotação com a cultura da soja e demais culturas. A construção dos terminais da ferrovia Ferronorte terá papel de extrema relevância no escoamento da safra estadual.

Como motivadores dos ciclos de expansão da agricultura brasileira foram destacados a disponibilidade de terras, abundantes e baratas, além dos benefícios pesados concedidos pelo governo, com empréstimos a juros baixos, que provocaram explosão na abertura de áreas de fronteira.

Atualmente, os novos incentivos para expandir a oferta de produto estão concentrados na demanda. A globalização dos mercados estimula investimentos estrangeiros no agronegócio brasileiro, reforçados pelo interesse por energias renováveis, pela manutenção de altos patamares de preços e pela aquisição de matérias-primas para a Ásia.

Mercados emergentes

Enquanto as exportações para mercados tradicionais como o Japão e a União Europeia recuaram, os novos players do sudeste da Ásia apareceram com destaque nas importações norte-americanas. É o caso do conjunto de países formados por Indonésia, Malásia, Filipinas, Cingapura, Tailândia, Vietnã, Camboja, Laos e Mianmar, onde:

• A população, de 606 milhões de habitantes, crescerá para 676 milhões em 2020;

• O crescimento do PIB foi notável em 2010: Indonésia (6,0%), Malásia (7,2%), Filipinas (6,7%), Cingapura (14,6%), Tailândia (7,6%) e Vietnã (6,8%);

• As importações agropecuárias dos Estados Unidos passaram de US$ 6,21 bilhões para US$ 7,58 bilhões, de 2009 a 2010, com grandes participações de: Indonésia (29,7%), Filipinas (21,6%), Vietnã (17,4%) e Tailândia (15,2%);

• O volume importado foi de 39,7 milhões de toneladas, com participação de 32,5% no trigo, 26% no farelo de soja, 15,2% no milho e 11,4% na soja em grãos.

Características das nações do Sudeste Asiático:

Economias variam de altamente capitalista (Cingapura) à comunista (Vietnã);

• Infraestrutura: muito desenvolvida (Cingapura e Malásia) a muito pobre (Vietnã, Indonésia e Filipinas);

• Problemas de corrupção, exceto em Cingapura;

• Populações ligadas à agricultura, exceto Cingapura e Malásia;

• Consumo de carne de porco limitado pela população muçulmana: Indonésia (86%), Malásia (60%), Cingapura (15%), Tailândia (5%) e Filipinas (5%);

• Problema de violência étnica religiosa em partes da Indonésia, Tailândia e das Filipinas;

• Boas relações com os Estados Unidos;

• Biotecnologia não é uma questão sensível na região;

• Empresas agrícolas de comércio e transformação controladas por famílias de ascendência chinesa: Charoen, Pokphand (PB), Wilmar, Gold Coin, KFC e San Miguel;

• Gerências seniores fluentes na língua inglesa, com educação nos Estados Unidos, na Austrália e no Reino Unido;

• Empresas abertas a novas ideias, tecnologias e novos sistemas de gestão;

• Forte afinidade para o comércio com os Estados Unidos;

• Centro comercial e financeiro em Cingapura;

• Setor agrícola consolidado: exporta no mundo 92% do óleo de palma e 95% do óleo de coco, além de borracha, frutas tropicais, café, camarão e arroz;

• Grande importador líquido de soja, farelo de soja, milho, trigo, DDG e algodão;

• Importador de carne (frango, suíno e bovino), vinho e alimentos processados.

Paulo César Dias do Nascimento Júnior, Engenheiro agrônomo, mestre em Economia Aplicada. Especialista em Mercados da Gerência de Mercados da OCB; Evandro Scheid Ninaut, Economista, mestrando em economia ambiental e especialista em Comércio Exterior e Gestão de Cooperativas e Gerente de Mercados da OCB