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Citricultura

Balanço de 2009 e tendências

Evaristo Marzabal Neves 1

Natalia de C. Trombeta 2

Aline C. Fermino 2

 

O ano de 2009 foi considerado desastroso em termos econômicos e financeiros para o setor citrícola. O quadro configurou-se tanto pela queda nas exportações como pela redução na renda bruta recebida pelo citricultor. A captação de divisas com exportações de suco concentrado tem declinado desde 2007, com quedas de 28,1% e 19,0%, respectivamente, em 2008 e 2009. Quando se separa em suco concentrado e não concentrado, no comparativo entre 2009 e 2008, verifica-se que a captação de divisas com suco concentrado se retraiu 38,31%. Já o suco não concentrado experimentou um aumento de 7,13%. Denota-se, porém, que o preço médio por tonelada, para ambos os sucos (concentrado e não concentrado), foram menores em 2009 em relação aos alcançados em 2008.

Para o horizonte 2006 a 2009, verifica-se o crescimento na captação de divisas do suco não concentrado e a queda da receita cambial obtida com o suco concentrado. Enquanto o suco não concentrado saltou 114,5%, o concentrado caiu 33,3%.

No mercado doméstico, o Valor Bruto da Produção medido pelo IBGE (Levantamento Sistemático da Produção Agrícola) mostra uma forte queda na renda bruta dos citricultores no Brasil nos últimos quatro anos. A queda é mais sensível no estado de São Paulo (onde se concentram 99% do valor bruto da produção brasileira de laranja) caindo 12,9% em relação a 2006 e 10,2% em relação a 2008.

Para melhor compreensão desses movimentos decrescentes na captação de divisas e no valor bruto da produção (renda bruta dos citricultores) basta um comparativo de preços médios anuais das cotações do suco concentrado na Bolsa de Nova York (EUA) e em Roterdã (Europa), e no mercado interno, preços médios nominais para a fruta posta na indústria e para o mercado doméstico para um horizonte de 2006 a 2009.

Preços médios para o suco e laranja nos mercados internacional e doméstico

Quando se analisam pontualmente os preços do suco de laranja no mercado internacional, em 2009 observa-se que estes registraram valores abaixo daqueles de anos anteriores, com variações negativas bem representativas ao longo do primeiro semestre de 2009, e com leve recuperação no segundo semestre.

Em Nova York os meses de outubro a dezembro apresentaram variações positivas no comparativo com os respectivos meses de 2008, ano em que se sentiram os efeitos da crise financeira iniciada em setembro, levando à queda nos preços internacionais e reduzindo a quantidade demandada por suco no mercado internacional. O preço da tonelada de suco concentrado na Bolsa de Nova York registrou média anual 17,7% menor que em 2008 e cerca de 42% menor que em 2006 e 2007, anos de preços atrativos ao citricultor brasileiro em função da incidência dos furacões na Flórida (segundo maior produtor mundial) e redução na oferta mundial de suco.

Em relação aos preços do suco de laranja obtidos no Porto de Roterdã, observa-se uma queda ainda maior que a observada na bolsa de Nova York no período 2008/2009.

No mercado interno, os preços da laranja também apresentaram quedas consideráveis. Na parcela da produção destinada à indústria foram os menores nos últimos anos, com destaque aos meses de junho e julho, fim e início de safra, nos quais se registraram os menores valores por caixa, R$ 3,70 por caixa de 40,8 quilos. Já no mercado de laranja para mesa, de maior valor agregado, os preços também se mantiveram abaixo das cotações de anos anteriores, destacando o início da safra 2009/10 com os menores preços obtidos (R$ 6,50/cx), os mais baixos em todo o período de 2006 a 2009.

A análise dos últimos quatro anos revela que 2009 foi o ano mais perverso para a citricultura paulista. Os citricultores se descapitalizaram e alguns desistiram da atividade em função da pouca atratividade dos preços diante dos custos de produção. Estes vêm crescendo consideravelmente nas últimas safras, em função dos investimentos em mão de obra para a colheita e, principalmente, para o manejo fitossanitário dos pomares, especialmente do greening ou HLB. Segundo o último levantamento realizado pelo Fundecitrus (Fundo de Defesa da Citricultura) a incidência do HLB em 2009 foi 30% maior em relação a 2008, sendo encontrado em aproximadamente 23.000 talhões comerciais, 25% dos talhões paulistas, alcançando 244 municípios. Seu manejo compõe-se basicamente de duas práticas conjuntas: erradicação de plantas sintomáticas e controle do vetor psilídeo, especialmente no período de brotação dos pomares (final da primavera e início do verão), em que sua população e incidência são maiores.

Os baixos preços obtidos pelo suco e pela caixa de laranja em 2009 se devem a alguns fatores que afetaram as curvas de oferta e de demanda dessa commodity, influenciando expressivamente a formação dos preços. Entres esses fatores destacam-se: 1) Crise econômica mundial e desvalorização cambial desestimulando exportações 2) Elevados estoques internacionais em 2008, principalmente na Florida, que na safra 2008/09 foi de 465 mil t FCOJ (suco congelado e concentrado) (65 graus Brix), ante a decrescente demanda por suco de laranja.

De acordo com estatísticas do USDA (Depto. de Agricultura dos Estados Unidos), para o período coberto pelas safras 2000/01 a 2007/08, o consumo mundial apresentou uma taxa anual média de crescimento negativa (2,23%), em grande parte devido ao aumento do preço do produto ante outros substitutos. É lembrada também a inexistência de estratégias de marketing eficientes e competitivas com produtos gaseificados, outros sucos, inclusive os derivados de soja, cuja demanda vem crescendo em anos recentes.

Perspectivas para 2010

Para 2010 as previsões são de melhora em relação aos preços vigentes em 2009, mas ainda distantes dos prevalecentes em 2006 e 2007. A recuperação, ainda que lenta, das economias europeia e norte-americana, puxa o consumo de suco, com redução dos estoques internacionais. A produção da Flórida, hoje estimada em 135 milhões de caixas, deverá sofrer baixa (estimada entre 10 e 16%) em função do rigoroso inverno, da maior incidência de HLB, do abandono de pomares e da redução na área de citricultura. Nesta década, a área com laranja na Flórida despencou de 339 mil hectares em 2000 para 235 mil hectares em 2008.

Por sua vez, a citricultura brasileira (principalmente a paulista) também está passando por uma de suas piores crises. O ano de 2009 foi desastroso para o setor, não só abalado pela crise financeira internacional, com forte impacto em três quartos do ano, como pelo dólar desvalorizado, impedindo ganhos com a exportação e melhor repartição doméstica das divisas captadas no exterior. O dólar desvalorizado e os baixos preços da matéria-prima comprometeram a remuneração dos produtores com contratos em dólar bem como os ganhos advindos da entrega direta da fruta posta no portão da indústria.

Ademais, a sinalização do desestímulo e contínua descapitalização do setor produtivo diante das crescentes despesas com mão de obra para colheita e combate a doenças sinalizam que a estimativa da safra 2010/11 (julho 2010 a junho 2011) poderá ser menor que a atual (a safra 2009/10 é estimada ao redor de 310 milhões de caixas). Para tanto são contabilizados também a falta de capital, o que reduz os tratos culturais, a erradicação de plantas por causa do HLB, e o alastramento desta doença. Neste caso, vem se assistindo à substituição em algumas regiões de pomares pela cana-de-açúcar e induzindo pequenos e médios produtores à erradicação dos pés de laranja e à introdução de hortaliças e fruticultura de clima temperado.

Para analistas da economia citrícola, a retomada da demanda internacional aliada aos estoques decrescentes e a expectativa da redução da oferta da matéria-prima na Flórida e em São Paulo sinalizam situação mais confortável de preço para 2010, quando o Brasil – que mantém a hegemonia mundial na produção de laranja e suco – será, no atendimento da demanda internacional, o determinante dos ajustes de mercado. 

 

1. Prof. titular, Esalq/USP

2. Graduanda em Eng. Agronômica-Esalq/USP