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Treinamento de mão de obra

O próximo desafio do setor sucroalcooleiro

Um dos maiores desafios que o setor sucroalcooleiro enfrenta atualmente é encontrar ou desenvolver mão de obra para dar suporte à crescente mecanização da colheita e do plantio de cana-de-açúcar. Investimentos na produção de açúcar e etanol não possuem uma barreira tecnológica. A barreira de capital está sendo vencida pelos grandes grupos e conglomerados, que passaram a deter uma participação crescente da moagem e controlam volumes anuais de cana processada equivalentes a países inteiros, competidores do Brasil no mercado mundial. No entanto, encontrar mão de obra, para operações agrícolas, e bons gestores, para comandar uma legião de trabalhadores rurais de média e alta qualificação, passou a ser o principal desafio das empresas que atuam nesse setor.

O processo de mecanização da colheita teve origem no Protocolo Agro-ambiental do Setor Sucroalcooleiro, que estabeleceu uma série de princípios e diretivas técnicas de natureza ambiental a serem observadas pelas usinas processadoras de cana-de-açúcar do Estado de São Paulo. Entre as diversas diretrizes, destaca-se aquela que antecipa os prazos legais para o final da colheita da cana-de-açúcar com o uso prévio do fogo nas áreas cultivadas pelas usinas. Essa prática agrícola, denominada “queima controlada da palha da cana”, é necessária para a sua colheita manual, sem o emprego de máquinas.

A consequência de maior impacto desse protocolo tem sido a mecanização da colheita. Seguindo o exemplo de São Paulo, outros Estados passaram a emitir licenças para instalação de novas usinas, desde que, já a partir do primeiro ano de operação, não houvesse queima de cana, isto é, prevendo a totalidade de corte mecanizado já no projeto inicial.

Com a mecanização crescente da colheita, a atividade determinante do contingente de mão de obra agrícola passou a ser o plantio, que também passa por um processo crescente de mecanização. O plantio manual vem sendo substituído por um plantio mecanizado que começa a parecer cada vez mais antiquado. Como as plantadeiras de cana são equipamentos pesados, dependendo do tipo de manejo, podem compactar o solo de forma indesejável, comprometendo a longevidade do canavial e sua produtividade.

Entretanto, está surgindo também uma nova tecnologia, desenvolvida pela Syngenta, denominada Plene (segundo a empresa, derivado de plant energy ), que permite o plantio de gemas de cana, já embutindo tecnologia de germinação e proteção ao cultivo, que deve transformar a forma com que a cana é plantada, adotando um conceito parecido com aquele aplicado no plantio de soja, milho e grãos em geral. O equipamento de plantio dessas sementes de cana, muito mais leve do que as plantadeiras atuais, foi desenvolvido pela John Deere em parceria com a Syngenta.

Atualmente, a área colhida de forma mecanizada é estimada entre 65% e 70% na região Centro-Sul. Boa parte do processo de mecanização se concentra hoje nessa região, onde são encontradas condições mais favoráveis de topografia para esse processo. Considerando que na safra 2010/11 é estimada moagem de 585 milhões de toneladas de cana na região Centro-Sul, 30% a 35% ainda a serem mecanizados representam 205 milhões de toneladas de cana tendo como base o ano de 2010. Até 2014, a demanda de açúcar e etanol deve elevar o volume de cana a ter colheita mecanizada para entre 360 e 400 milhões de toneladas.

Considerando que o volume de cana a ser atendido por corte mecanizado é estimado entre 360 e 400 milhões de toneladas até 2014, estima-se que o contingente necessário de operadores técnicos está entre 48.600 e 54.000 trabalhadores. Simplesmente, hoje não existe esse contingente no campo. Principalmente, não existem mecânicos e soldadores. Precisam também ser formados os gerentes que irão administrar todo esse contingente.

Treinamento e capacitação de mão de obra passaram a ser fundamentais para dar suporte ao processo de mecanização da colheita. Isso tudo sem incluir o impacto da mecanização do plantio. Daí a importância dos programas de treinamento e requalificação de mão de obra que vêm sendo estimulados por entidades de representação dos produtores e dos visionários que enxergaram essa tendência muitos anos atrás.

A dispensa de mão de obra de baixa qualificação utilizada no corte manual, hoje sendo empregada para colher cerca de 205 milhões de toneladas de cana, pode ser estimada em cerca de 128 mil trabalhadores. É quase certo que este contingente será absorvido pelo setor de construção civil, hoje impulsionado por obras no setor de energia, transportes e moradia.

O Protocolo Agro-Ambiental assinado em 2007 foi, provavelmente, um catalisador do processo de mecanização da colheita, ao estimular o desenvolvimento de tecnologias de equipamentos e agricola, como a sistematização do cultivo, adaptando-o às condições do corte mecanizado. Mas não se pode deixar de reconhecer que a mecanização é uma meta sendo perseguida pela indústria não apenas pelo compromisso assumido com o protocolo, mas, fundamentalmente, porque a escassez de mão de obra no campo tem atingido também os contingentes de baixa qualificação, elevando o custo do corte manual. Atualmente, o corte mecanizado já tem um custo de colheita menor do que o manual.

Com este processo, muda a contribuição que o setor sucroalcooleiro deu tradicionalmente ao emprego rural como absorvedor de mão de obra de baixa qualificação técnica. Estamos assistindo a uma nova etapa de desenvolvimento, que permitirá a geração de empregos de mais elevada qualificação, com crescente produtividade, e maior remuneração.

Isso não significa que não se deva reconhecer a importância que este setor teve por sua capacidade de, no passado, absorver grandes contingentes de mão de obra de baixa qualificação. Este papel pode ser ainda muito bem-vindo nas fases iniciais de implementação de modelos similares de desenvolvimento descentralizado, baseados na produção de energia limpa e renovável de biomassa em outros países em desenvolvimento. No Brasil, esse desenvolvimento começa a dar sinais claros de que está gerando resultados, e uma de suas consequências mais impactantes nesse momento é a demanda crescente por mão de obra de mais elevada qualificação.

Protocolo Agro-ambiental do Setor Sucroalcooleiro

Em 4 de junho de 2007, a indústria paulista e o governo do Estado de São Paulo assinaram o Protocolo Agro-ambiental do Setor Sucroalcooleiro. Entre as principais resoluções deste protocolo estão:

• antecipação do prazo final para a eliminação da queimada da cana-de-açúcar de 2021 para 2014, conforme previsto na Lei Estadual nº 11.241 de 2002, nos terrenos com declividade até 12%, adiantando o percentual de cana não queimada, em 2010, de 50% para 70%. Nos terrenos com declividade acima de 12%, o prazo final para a eliminação da queimada foi antecipado de 2031 para 2017, adiantando o percentual da cana não queimada, em 2010, de 10% para 30%;

• não utilização da queima da cana-de-açúcar nas colheitas das áreas de expansão de canaviais;

• adoção de ações para que não ocorra a queima, a céu aberto, do bagaço de cana, ou de qualquer outro subproduto da cana-de-açúcar;

• proteção de áreas de mata ciliar das propriedades canavieiras, visando à preservação ambiental e proteção à biodiversidade;

• proteção de nascentes de água das áreas rurais do empreendimento canavieiro, recuperando a vegetação ao seu redor;

• implementação de Plano Técnico de Conservação do Solo, incluindo o combate à erosão e a contenção de águas pluviais nas estradas internas e nos carreadores;

• implementação de Plano Técnico de Conservação de Recursos Hídricos, favorecendo o adequado funcionamento do ciclo hidrológico, incluindo programa de controle da qualidade da água e reuso da água utilizada no processo industrial;

• adoção de boas práticas para descarte de embalagens vazias de agrotóxicos, promovendo a tríplice lavagem, armazenamento correto, treinamento adequado dos operadores e uso obrigatório de equipamentos de proteção individual; e

• adoção de boas práticas para minimizar a poluição atmosférica de processos industriais e otimização da reciclagem e o reuso adequado dos resíduos gerados na produção de açúcar e etanol.

Mudanças na mão de obra empregada com a mecanização

Cada colhedora de cana é capaz de cortar em média entre 500 e 700 toneladas de cana por dia. Considerando que um cortador de cana tem uma produtividade média entre 5 e 8 toneladas por dia, cada colhedora desloca cerca de 100 cortadores, geralmente de baixa ou nenhuma qualificação técnica.

De outro lado, o corte mecanizado é realizado em frentes de colheita. Cada frente tem geralmente quatro colhedoras. Cada colhedora precisa ter a ela associados dois conjuntos de transbordo, que podem ser operados por tratores ou caminhões. Portanto, cada frente de colheita demanda doze operadores, sendo três operadores por colhedora, um para a colhedora e dois para os tratores ou caminhões.

Como as turmas trabalham em sistema folguista cinco por um, estes doze operadores são na verdade quinze trabalhadores. Soma-se a esses trabalhadores uma equipe de manutenção, composta de um mecânico e um soldador. Além disso, cada frente precisa ter um bombeiro para controlar a possibilidade de fogo indesejado. Portanto, cada frente requer 18 operadores especializados por turno. Como são três turnos, trata-se de 54 operadores por frente de colheita, ou 13,5 operadores de diferentes qualificações, em média, por colhedora.

* Presidente da Datagro Consultoria

Plinio Mário Nastari*